DH 3830
Ora, qual o sentido literal de um escrito, muitas vezes não é tão claro nas palavras dos antigos orientais como nos escritores do nosso tempo. … De fato os antigos orientais, para exprimir os seus conceitos, nem sempre usaram das formas ou gêneros de expressão de que nós hoje usamos, mas sim daqueles que estavam em uso entre os seus contemporâneos e conterrâneos. Quais eles tenham sido não o pode o exegeta determinar a priori, mas só por meio de um diligente exame da antiga literatura oriental. … A mesma investigação demonstrou já luminosamente que o povo de Israel, entre todas as antigas nações do Oriente, se distingue de modo singular na escrituração cuidadosa da história, quer pela antigüidade, quer pela fiel narração dos fatos – prerrogativa essa que com certeza se pode deduzir do carisma da divina inspiração e do particular fim da história bíblica, que abrange da religião. Contudo ninguém que tenha um conceito adequado da inspiração bíblica estranhará que também nos autores sagrados, como nos outros antigos, se encontrem certos modos de expor e contar, certos idiotismos próprios, especialmente das línguas semíticas, certas expressões chamadas aproximativas, certos modos de falar hiperbólicos e talvez paradoxais, que servem para gravar as coisas mais firmemente na memória. Nenhum dos modos de falar de que entre os antigos e especialmente entre os orientais se servia a linguagem para exprimir o pensamento, pode dizer-se incompatível com os Livros Sagrados, desde que o gênero adotado não repugne à santidade e verdade de Deus, como já advertiu o Doutor Angélico, com a sua costumeira perspicácia, por estas palavras: “Na Escritura, as coisas divinas nos são transmitidas ao modo usual dos homens” 1 . 836 … Não raramente, … quando alguns presumem acusar os autores sagrados de erro histórico ou de inexatidão em referir certos fatos, examinando bem vê-se que se trata simplesmente de modos de falar ou narrar próprios dos antigos, correntemente usados para trocar idéias e que realmente se aceitavam como lícitos no trato comum. … científica no campo da Bíblia
Quisnam autem sit litteralis sensus, in veterum orientalium auctoram verbis et scriptis saepenumero non ita in aperto est ut apud nostrae aetatis scriptores. … [315] … Veteres enim Orientales, ut quod in mente haberent exprimerent, non semper iisdem formis iisdemque dicendi modis utebantur, quibus nos hodie, sed illis potius, qui apud suorum temporum et locorum homines usu erant recepti. Hi quinam fuerint, exegeta non quasi in antecessum statuere potest, sed accurata tantummodo antiquarum Orientis litterarum pervestigatione. … Haec eadem pervestigatio id quoque iam lucide comprobavit, israeliticum populum inter ceteras Orientis veteres nationes in historia rite scribenda, tam ob antiquitatem, quam ob fidelem rerum gestarum relationem singulariter praestitisse; quod quidem ex divinae inspirationis charismate atque ex peculiari historiae biblicae fine, qui ad religionem pertinet, profecto eruitur. Nihilominus etiam apud Sacros Scriptores, sicut apud ceteros antiquos, certas quasdam inveniri exponendi narrandique artes, certos quosdam idiotismos, linguis praesertim semiticis proprios, approximationes quae dicuntur, ac certos loquendi modos hyperbolicos, immo interdum etiam paradoxa, quibus res menti firmius imprimantur, nemo sane miretur, qui de inspiratione biblica recte sentiat. A Libris enim Sacris nulla aliena est illarum loquendi rationum, quibus apud veteres gentes, praesertim apud Orientales, humanus sermo ad sententiam exprimendam uti solebat, ea tamen condicione, ut adhibitum dicendi genus Dei sanctitati et veritati haudquaquam repugnet, quemadmodum, pro sagacitate sua, iam ipse Angelicus Doctor hisce verbis animadvertit: “In Scriptura divina tra[316]duntur nobis per modum, quo homines solent uti” 1 . … Non raro enim, … cum sacros Auctores ab historiae fide aberrasse, aut res minus accurate rettulisse obiurgando nonnulli iactant, nulla alia de re agi comperitur, nisi de suetis illis nativis antiquorum dicendi narrandique modis, qui in mutuo hominum inter se commercio passim adhiberi solebant, ac reapse licito communique more adhibebantur. … Liberdade da investigação