DH 4310
10. (As interrogações profundas do gênero humano). Na verdade, os desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem, porque no íntimo do próprio homem muitos elementos se digladiam. Enquanto, por uma parte, como criatura, ele se experimenta sob muitos aspectos limitado, por outra sente-se ilimitado nos seus 1002 desejos e chamado a uma vida superior. Atraído por muitas solicitações, vê-se obrigado a escolher entre elas e a renunciar a algumas. Mais ainda, fraco e pecador, faz muitas vezes aquilo que não quer e não realiza o que desejaria fazer 1 . Sofre assim em si mesmo a divisão, da qual tantas e tão grandes discórdias se originam para a sociedade. Muitos, sem dúvida, que levam uma vida impregnada de materialismo prático, não têm clara percepção desta situação dramática; ou, oprimidos pela miséria, não lhe podem prestar atenção. Outros muitos pensam encontrar a paz nas diversas interpretações da realidade que lhes são propostas. Alguns só do esforço humano esperam a verdadeira e plena libertação do gênero humano e estão convencidos que o futuro domínio do homem sobre a terra preencherá todas as aspirações do seu coração. E não faltam os que, desesperando de encontrar um sentido para a vida, louvam a coragem daqueles que, julgando a existência humana vazia de qualquer significado, se esforçam por lhe conferir, a partir somente de seu próprio engenho, todo o seu sentido. Todavia, perante a evolução atual do mundo, cada dia são mais numerosos os que põem ou sentem com nova acuidade as questões fundamentais: Que é o homem? Qual o sentido da dor, do mal e da morte, que, apesar do enorme progresso alcançado, continuam a existir? Para que servem essas vitórias, ganhas a tão grande preço? Que pode o homem dar à sociedade, que pode dela esperar? Que haverá depois desta vida terrena? A Igreja, por sua parte, acredita que Jesus Cristo, morto e ressuscitado por todos 2 , oferece aos homens pelo seu Espírito a luz e a força para poderem corresponder à sua altíssima vocação; e não foi dado aos homens sob o céu outro nome, no qual devam ser salvos 3 . Acredita também que a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontram no seu Senhor e Mestre. Além disso, afirma que, subjacentes a todas as transformações, há muitas coisas que não mudam, cujo último fundamento é Cristo, o mesmo ontem, hoje, e pelos séculos 4 . Quer, portanto, o Concílio, à luz de Cristo, Imagem de Deus invisível e Primogênito de toda a criação 5 , dirigir-se a todos, para iluminar o mistério do homem e cooperar na solução das principais questões do nosso tempo.
10. (De profundioribus interrogationibus generis humani). Revera inaequilibria quibus laborat mundus hodiernus cum inaequilibrio illo fundamentaliori connectuntur, quod in hominis corde radicatur. In ipso enim homine plura elementa sibi invicem oppugnant. Dum enim una ex parte, utpote creatura, multipliciter sese limitatum experitur, ex altera vero in desideriis suis illimitatum et ad superiorem vitam vocatum se sentit. Multis sollicitationibus attractus, iugiter inter eas seligere et quibusdam renuntiare cogitur. Immo, infirmus ac peccator, non raro illud quod non vult facit et illud quod facere vellet non facit 1 . Unde in seipso divisionem patitur, ex qua etiam tot ac tantae discordiae in societate oriuntur. Plurimi sane, quorum vita materialismo practico inficitur, a clara huiusmodi dramatici status perceptione avertuntur, vel autem, miseria oppressi, impediuntur quominus illum considerent. Multi in interpretatione rerum multifarie proposita quietem se invenire existimant. Quidam vero a solo conatu humano veram plenamque generis humani liberationem exspectant, sibique persuasum habent futurum regnum hominis super terram omnia vota cordis eius expleturum esse. Nec desunt qui, de sensu vitae desperantes, audaciam laudant eorum qui, exsistentiam humanam omnis significationis propriae expertem existimantes, ei totam significationem ex solo proprio ingenio conferre nituntur. Attamen, coram hodierna mundi evolutione, in dies numerosiores fiunt qui quaestiones maxime fundamentales vel ponunt vel nova acuitate persentiunt: quid est homo? Quinam est sensus doloris, mali, mortis, quae, quamquam tantus progressus factus est, subsistere pergunt? Ad quid victoriae illae tanto pretio acquisitae? Quid societati homo afferre, quid ab ea exspectare potest? Quid post vitam hanc terrestrem subsequetur? [1033] Credit autem Ecclesia Christum, pro omnibus mortuum et resuscitatum 2 , homini lucem et vires per Spiritum suum praebere ut ille summae suae vocationi respondere possit; nec aliud nomen sub caelo datum esse hominibus, in quo oporteat eos salvos fieri 3 . Similiter credit clavem, centrum et finem totius humanae historiae in Domino ac Magistro suo inveniri. Affirmat insuper Ecclesia omnibus mutationibus multa subesse quae non mutantur, quaeque fundamentum suum ultimum in Christo habent, qui est heri, hodie, Ipse et in saecula 4 . Sub lumine ergo Christi, Imaginis Dei invisibilis, Primogeniti omnis creaturae 5 , Concilium, ad mysterium hominis illustrandum atque ad cooperandum in solutionem praecipuarum quaestionum nostri temporis inveniendam, omnes alloqui intendit.