DH 4162
36. Tendo-se feito obediente até à morte e tendo sido, por este motivo, exaltado pelo Pai [cf. Fl 2,8s], Cristo entrou na glória do seu reino. Todas as coisas lhe estão sujeitas, até que ele se submeta, a si e a todas as criaturas, ao Pai, para que Deus seja tudo em todos [cf. 1Cor 15,27s]. Comunicou este poder aos discípulos, para que também eles sejam constituídos em régia liberdade e, com a abnegação de si mesmos e a santidade da vida, vençam em si próprios o reino do pecado [cf. Rm 6,12]; mais ainda, para que, servindo a Cristo também nos outros, conduzam os seus irmãos, com humildade e paciência, àquele Rei, a quem servir é reinar. Pois o Senhor 956 deseja dilatar também por meio dos leigos o seu reino, reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz 1 , no qual a própria criação será liberta da servidão da corrupção, alcançando a liberdade da glória dos filhos de Deus [cf. Rm 8,21]. Grande é a promessa, grande o mandamento que é dado aos discípulos: “Tudo é vosso; vós sois de Cristo; e Cristo é de Deus” [1Cor 3,23]. Por conseqüência, devem os fiéis conhecer a natureza íntima e o valor de todas as criaturas, e sua ordenação para a glória de Deus, ajudando-se uns aos outros, mesmo através das atividades propriamente temporais, a levar uma vida mais santa, para que assim o mundo seja penetrado do espírito de Cristo e, na justiça, na caridade e na paz, atinja mais eficazmente o seu fim. Na realização plena deste dever, os leigos ocupam o lugar mais importante. Por conseguinte, com a sua competência nas matérias profanas e a sua atuação interiormente elevada pela graça de Cristo, contribuam eficazmente para que os bens criados sejam valorizados pelo trabalho humano, pela técnica e pela cultura, para utilidade de todos os homens, sejam melhor distribuídos entre eles e contribuam a seu modo para o progresso de todos na liberdade humana e cristã, em harmonia com o destino que lhes deu o Criador e segundo a iluminação do Verbo. Deste modo, por meio dos membros da Igreja, Cristo iluminará cada vez mais a humanidade inteira com sua luz salvadora. Além disso, unindo as forças, devem os leigos sanear as estruturas e condições do mundo, se em algum lugar incitarem os costumes ao pecado, de tal modo que todas se conformem às normas da justiça e antes ajudem ao exercício das virtudes do que o contrariem. Agindo assim, imbuirão de valor moral a cultura e as obras humanas. E, por este modo, o campo que é o mundo ficará mais preparado para a semente da palavra divina, e se abrirão à Igreja mais amplamente as portas para introduzir no mundo a mensagem da paz. Ora, a própria economia da salvação exige que os fiéis aprendam a distinguir cuidadosamente entre os direitos e deveres que lhes competem como membros da Igreja e os que lhes dizem respeito enquanto membros da sociedade humana. Procurem harmonizar entre si uns e outros, lembrando-se que se devem guiar em todas as coisas temporais pela consciência cristã, já que nenhuma atividade humana, nem mesmo em assuntos temporais, se 957 pode subtrair ao domínio de Deus. É muito necessário em nossos dias que esta distinção e harmonia se manifestem claramente nas atitudes dos fiéis, para que a missão da Igreja possa corresponder mais plenamente às condições particulares do mundo atual. Assim como se deve reconhecer que a cidade terrena se consagra a justo título aos assuntos temporais e se rege por princípios próprios, assim com razão se deve rejeitar a nefasta doutrina que pretende construir a sociedade sem levar de modo algum em conta a religião, atacando e destruindo a liberdade religiosa dos cidadãos 2 .
36. Christus, factus oboediens usque ad mortem et propter hoc a Patre exaltatus [cf. Phil 2,8s], in gloriam regni sui intravit. Cui omnia subiciuntur, donec Ipse se cunctaque creata Patri subiciat, ut sit Deus omnia in omnibus [cf. 1 Cor 15,27s]. Quam potestatem discipulis communicavit, ut et illi in regali libertate constituantur et sui abnegatione vitaque sancta regnum peccati in seipsis devincant [cf. Rm 6,12], immo ut Christo etiam in aliis servientes, fratres suos ad Regem, cui servire regnare est, humilitate et patientia perducant. Dominus enim regnum suum etiam per laicos fideles dilatare cupit, regnum scilicet veritatis et vitae, regnum sanctitatis et gratiae, regnum iustitiae, amoris et pacis 1 ; in quo regno ipsa creatura liberabitur a servitute corruptionis in libertatem gloriae filiorum Dei [cf. Rm 8,21]. Magna sane promissio, magnumque mandatum discipulis datur: “Omnia enim vestra sunt, vos autem Christi, Christus autem Dei” [1 Cor 3,23]. Fideles igitur totius creaturae intimam naturam, valorem et ordinationem in laudem Dei agnoscere, et per opera etiam saecularia se invicem ad sanctiorem vitam adiuvare debent, ita ut mundus spiritu Christi imbuatur atque in iustitia, caritate et pace finem suum efficacius attingat. In quo officio universaliter adimplendo laici praecipuum locum obtinent. Sua igitur in profanis disciplinis competentia suaque activitate, gratia Christi intrinsecus elevata, valide conferant operam, ut bona creata secundum Creatoris ordinationem Eiusque Verbi illuminationem humano labore, arte technica, civilique cultura ad utilitatem omnium prorsus hominum excolantur, aptiusque inter illos [42] distribuantur, et suo modo ad universalem progressum in humana et christiana libertate conducant. Ita Christus per Ecclesiae membra totam societatem humanam suo salutari lumine magis magisque illuminabit. Laici praeterea, collatis quoque viribus, instituta et condiciones mundi, si qua mores ad peccandum incitant, ita sanent, ut haec omnia ad iustititae normas conformentur et virtutum exercitio potius faveant quam obsint. Ita agendo culturam operaque humana valore morali imbuent. Hoc modo simul ager mundi melius pro semine verbi divini paratur, et Ecclesiae latius patent portae, quibus praeconium pacis in mundum introeat. Propter ipsam oeconomiam salutis, fideles discant sedulo distinguere inter iura et officia quae eis incumbunt, quatenus Ecclesiae aggregantur, et ea quae eis competunt, ut sunt humanae societatis membra. Utraque inter se harmonice consociare satagent, memores se, in quavis re temporali, christiana conscientia duci debere, cum nulla humana activitas, ne in rebus temporalibus quidem, Dei imperio subtrahi possit. Nostro autem tempore maxime oportet ut distinctio haec simul et harmonia quam clarissime in modo agendi fidelium elucescant, ut missio Ecclesiae particularibus mundi hodierni condicionibus plenius respondere valeat. Sicut enim agnoscendum est terrenam civitatem, saecularibus curis iure addictam propriis regi principiis, ita infausta doctrina, quae societatem, nulla habita religionis ratione, exstruere contendit et libertatem religiosam civium impugnat et eruit, merito reicitur 2 .